domingo, 17 de abril de 2011

Então, Luz Marina decidiu se tornar acrobata. E saltou de verdade, lá do alto, e em sua primeira acrobacia, aos seis anos de idade, quebrou as costelas.
E assim foi, depois, a vida. Na guerra, longa guerra contra a ditadura de Somoza, e nos amores: sempre voando, sempre quebrando as costelas.


sexta-feira, 15 de abril de 2011

"Os seres humanos conseguiram levar tão longe a dominação das forças da natureza que seria fácil, com o auxílio delas, exterminarem-se mutuamente até o último homem."

sábado, 26 de março de 2011

"Jamais estamos tão desprotegidos contra o sofrimento do que quando amamos, jamais nos tornamos tão desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor. Contudo, isso não esgota a técnica de vida baseada no valor e na felicidade do amor; há muito mais a dizer a respeito."

O mal estar na cultura.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Comporta-te assim, meu Lucílio, reivindica o teu direito sobre ti mesmo e o tempo que até hoje foi levado embora, foi roubado ou fugiu, recolhe e aproveita esse tempo. Convence-te de que é assim como te escrevo: certos momentos nos são tomados, outros nos são furtados e outros ainda se perdem no vento. Mas a coisa mais lamentável é perder tempo por negligência. Se pensares bem, passamos grande parte da vida agindo mal, a maior parte sem fazer nada, ou fazendo algo diferente do que deveria fazer.

Podes me indicar alguém que dê valor ao seu tempo, valorize o seu dia, entenda que se morre diariamente? Nisso, pois, falhamos: pensamos que a morte é coisa do futuro, mas parte dela já é coisa do passado. Qualquer tempo que já passou pertence à morte.

Então, caro Lucílio, procura fazer aquilo que me escreves: aproveita todas as horas; serás menos dependente do amanhã se te lançares ao presente. Enquanto adiamos, a vida se vai.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Eu não sou poeta, mas...

Dê razão sempre a si mesmo e a seu sentimento, diante de qualquer discussão, debate e introdução; se o senhor estiver errado, o crescimento natural de sua vida íntima o levará lentamente, com o tempo, a outros conhecimentos. Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz. Deixar cada impressão, cada semente de um sentimento germinar por completo dentro de si, na escuridão do indizível e do inconsciente, em um ponto inalcançável para o próprio entendimento, e esperar com profunda humildade e paciência a hora do nascimento de uma nova clareza: só isso se chama viver artisticamente, tanto na compreensão quanto na criação.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O mundo ia muito bem até nascer o por quê.

No começo, é difícil. Sem por quê, viver, arrastar esses dias, um atrás do outro, é subir uma escada sem corrimão, entrar pelado no mar, andar no mato de olhos fechados, dormir ao relento e sem cobertas. Mas, enfim, a gente acaba se acostumando a qualquer coisa. Me acostumei a viver sem perguntar por quê. E a só freqüentar as questões periféricas, como?, quando?, onde?

domingo, 1 de agosto de 2010

O pai


Vera faltou na escola. Ficou o dia inteiro trancada em casa. Ao anoitecer, escreveu uma carta ao pai. O pai de Vera estava muito doente, no hospital. Ela escreveu:

- Peço que você goste de você, que se cuide e se proteja, que se mime, que se sinta, que se ame, que se desfrute. Digo que gosto de você, cuido de você, protejo você, mimo você, sinto você, amo você, desfruto você.


Héctor Carnevale durou mais alguns dias. Depois, com a carta de sua filha debaixo do travesseiro, foi-se embora no sonho.

Mapa do tempo (ou um trecho dele)



Faz uns trezentos mil anos, a mulher e o homem se disseram as primeiras palavras, e acharam que poderiam se entender. E assim estamos até hoje: querendo ser dois, mortos de medo, mortos de frio, buscando palavras.

Se houve, prove.

De noite, me perguntou onde eu queria dormir. Com você, é claro, eu respondi. É por isso que eu adoro você, ela falou. Mas faz tua cama aí nesse canto, eu durmo aqui no sofá mesmo, legal pra você?
— Norma, que é que está acontecendo? Que história é essa?Vamos conversar um pouco. Onde é que foi parar aquilo tudo que havia?
— Tudo aquilo, o quê?
— Ora, você sabe, não se faça de boba.
— Você deve estar louco. Nunca houve nada entre nós.
— Essa não, Norma. Invente outra.
— Se houve, prove.
Eu não podia provar nada. A única evidência que eu tinha de que TINHA HAVIDO ALGUMA COISA ENTRE NÓS, esse nó no peito, essa sensação de que tinham colocado uma rolha no gargalo do meu coração, e essa vontade de apertar seu pescoço devagarinho até fazer o cérebro sair pelas orelhas que nem bosta num moedor de carne. Ou bater nela com um maço de notas de mil, até ouvir ela gritar Bernardo. Uma navalha, por favor.

sábado, 31 de julho de 2010

As armadilhas do tempo.




Sentada de cócoras na cama, ela olhou-o longamente, percorreu seu corpo nú da cabeça aos pés, como se estudasse as sardas e os poros, e disse:
- A única coisa que eu mudaria em você é o endereço.
E a partir de então viveram juntos, foram juntos, se divertiam brincando pelo jornal no café da manhã e cozinhavam inventando e dormiam feito um nó.
Agora esse homem, mutilado dela, quer recordá-la como era. Como era qualquer uma das que ela era, cada uma com sua própria graça e seu próprio poderio, porque aquela mulher tinha o espantoso costume de nascer com frequência. 
Mas não. A memória se nega. A memória não quer devolver a ele nada além desse corpo gelado onde ela não estava, esse corpo vazio das muitas mulheres que ela foi.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Porões da noite



Porque aquela mulher não se calava nunca, porque se queixava sempre, porque para ela não havia uma bobagem que não fosse um problema, porque estava farto de trabalhar feito burro de carga e ainda por cima aguentar a sua parentela, porque na cama tinha que rogar como um mendigo, porque ela andou com outro e se fazia de santa, porque ela doía nele como nunca ninguém havia doído e porque sem ela não conseguia viver mas com ela também não, ele se viu obrigado a torcer-lhe o cangote, como se fosse uma galinha.
Porque esse homem não escutava nunca, porque nunca ligava para ela, porque para ele não havia um problema que não fosse uma bobagem, porque estava farta de trabalhar feito mula e ainda por cima aguentar aquele patife e toda a sua parentela, porque na cama tinha que obedecer como uma puta, porque ele andou com outra e contava a todo mundo, porque ele doía nela como jamais ninguém havia doido e porque sem ele não conseguia viver mas com ele também não, ela se viu obrigada a empurrá-lo do décimo andar, como se fosse um pacote.
No final daquela noite, tomaram juntos o café da manhã. Como todos os dias, a rádio transmitia música e notícias. Nenhuma notícia chamou a sua atenção. Os notíciários não cuidam de sonhos.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Invenção do coração de mulher.



Nem sei, aliás, se cheguei a estar apaixonado por Norma Propp. Afinal, o que é que significa isso? Quem não sabe, no fundo, amor é invenção do coração da mulher, que ela tenta vender para o primeiro que aparecer e o seguinte, e o seguinte, e o seguinte, e assim por diante até aquela cena de sangue num bar da Avenida São João, que só vem para provar, de uma vez por todas, que alguém e ninguém não são iguais, e dali saem para lamber o sangue de suas patas, meditando a próxima vingança. No fundo, toda diferença é insuportável. O ímpar do professor Propp, a gente quer tudo par.

sábado, 24 de julho de 2010

É questão de encontrar um novo dragão



Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.


Nada, nada disso existe.


Então quase vomito e choro e sangro quando penso assim. Mas respiro fundo, esfrego as palmas das mãos, gero energia em mim. Para manter-me vivo, saio à procura de ilusões como o cheiro das ervas ou reflexos esverdeados de escamas pelo apartamento e, ao encontrá-los, mesmo apenas na mente, tornar-me então outra vez capaz de afirmar, como num vício inofensivo: tenho um dragão que mora comigo. E, desse jeito, começar uma nova história que, desta vez sim, seria totalmente verdadeira, mesmo sendo completamente mentira. Fico cansado do amor que sinto, e num enorme esforço que aos poucos se transforma numa espécie de modesta alegria, tarde da noite, sozinho neste apartamento no meio de uma cidade escassa de dragões, repito e repito este meu confuso aprendizado para a criança-eu-mesmo sentada aflita e com frio nos joelhos do sereno velho-eu-mesmo...

sexta-feira, 23 de julho de 2010

A sobrevivência


a loucura, quem sabe, caíra como chuva

ou como uma bigorna em cima dos sonhos empilhados

perturbando o sono como cantilena de ladainhas

suspiros de lástimas em meio à canções desencontradas

e ela arrancou cabelos

enumerou pratos

copos em cacos agarrados aos dedos

treinando a vista 

para ver até onde tudo sangrava

e ela ouviu música

cerrou cortinas

desejou massacres

jogou a solidão dentro da taça


e bebeu

e efervesceu o grito como antiácido intragável

atirou contra a noite de extinções e extermínios

a calma, quem sabe, tirou férias para morrer

ou como uma canção engasgada

mão no rosto na hora da foto batida 

na despedida no meio da noite 

em meio a acenos e mais acenos de adeus

treinando para o nunca

e ela amassou cigarros

girou no delírio de sobrevivências tardias

e sonhou




li aqui ó: http://pontispopuli.blogspot.com/